naparamas só atuam em momentos de extrema tensão ou guerra.


Míticos e místicos, os naparamas só atuam em momentos de extrema tensão ou guerra. Uma força paralela que vai para a linha da frente em defesa do povo, temida pelo exército. São inimigos do Governo, mas já foram aliados.




As autoridades perseguem-nos implacavelmente, mas os naparamas revidam de forma igualmente feroz (foto ilustrativa)Foto: Simon Wohlfahrt/AFP/Getty Images

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Hoje, são perseguidos sem tréguas pelas autoridades: em Larde, na província de Nampula, ou em Morrumbala, na Zambézia. Mas outrora foram estratégicos aliados do Governo da FRELIMO na guerra civil de 16 anos contra a RENAMO.


O especialista em eleições Guilherme Mbilana, que nessa altura viveu durante oito anos em Bilibiza, província de Cabo Delgado, conta sobre essa união: "Foi da criação de forças locais que combateram a RENAMO sem usar tanto as armas, era um grupo de criação local."


"Há um lugar no norte de Cabo Delgado e norte de Nampula em que tinham o seu próprio comando e que os governantes não tinham como os controlar, porque usaram os naparamas para combater a RENAMO", recorda Mbilana.


Moçambique: Guerra civil com pausas de paz

A paz nunca foi uma certeza em Moçambique. Ela apenas tem intercalado confrontos militares desde a independência. Acordos de paz mal concebidos parecem estar na origem dos conflitos. Mas há novos bons sinais à vista.


O começo da guerra civil

A guerra entre o Governo da FRELIMO e a RENAMO começou em 1977, isso cerca de dois anos após a proclamação da independência do país. A RENAMO contestava a governação da FRELIMo e queria democracia. Este movimento tinha o apoio da ex-Rodésia e da África do Sul, dois vizinhos de Moçambique. A guerra matou milhões de moçambicanos e quase paralisou a economia do país.




Acordo de Inkomati, o primeiro de vários

Acabar com a guerra era o obetivo deste acordo, alcançado em 1984. Foi assinado entre os antigos Presidentes de Moçambique e da África do Sul, Samora Machel e Peter Botha, respetivamente. Ficou acordado que Pretória deixava de apoiar a RENAMO e Maputo parava o apoio ao ANC. Este último que lutava contra o Apartheid. Mas ninguém respeitou o acordo.

Acordo Geral de Paz de Roma

Colocou finalmente fim a guerra em 1992. Foi patrocinado pela Comunidade Santo Egídio, instituição católica italiana. Nessa altura o país já estava devastado e tinha transitado do sistema socialista para o da economia de mercado. Afosno Dhlakama, líder da RENAMO, e Joaquim Chissano, ex-Presidene de Moçambique, assinaram um acordo que pôs fim a uma guerra de 16 anos.



Eleições: nova era de desentendimentos

Em 1994 o país dava os seus primeiros passos rumo a democracia: início do multipartidarismo e realização das primeiras eleições, patrocinadas pela ONU. O primeiro Presidente eleito do país foi Joaquim Chissano. A RENAMO contestou, mas acabou por aceitar os resultados eleitorais.


Eleições 1999: RENAMO revolta-se

Nas segundas eleições, em 1999, Joaquim Chissano e a FRELIMO voltaram a ganhar. Mas o processo foi novamente marcado por graves irregularidades, a RENAMO diz que houve fraude e contestou com mais veemência. E no ano 2000 apoiantes da RENAMO manifestaram-se em Montepuez província de Cabo Delgado, contra os resultados. Cerca de 700 manifestantes terão sido detidos e mortos por asfixia nas celas.

Rastilho para o barril de pólvora já arde

As sucessivas irregularidades nas eleições, a lei eleitoral desajustada e difícil integração dos ex-guerrilheiros da RENAMO no exército nacional foram os principais pontos que aumentaram a tensão com o Governo. A falta de confiança que caracteriza a relação entre as partes aumentou.



As armas falam novamente

Em 2013 a polícia e homens da RENAMO confrontaram-se. Era o início dos conflitos armados. Nesse ano a RENAMO recusa a aprovação da Lei Eleitoral e não participa nas autárquicas. Há um interregno no conflito para a realização de eleições gerais em 2014. A RENAMO perde e acusa a FRELIMO de fraude. O país volta a ser palco de guerra. RENAMO exige governar as seis províncias onde diz ter ganho.




Guebuza e Dhlakama: o braço de ferro até ao fim

Em setembro de 2014 o Presidente Armando Guebuza e o líder da RENAMO chegam a acordo para por fim ao conflito armado. Abriu-se assim caminho para as eleições gerais, onde a RENAMO participou. Mas as negociações entre os dois homens nunca foram fáceis. Para começar os encontros foram pouco

Na guerra vale tudo

Em Setembro de 2015 Dhlakama sofreu dois atentados. Um deles contra a coluna em que viajava, de Manica a Nampula. Afonso Dhlakama saiu ileso, mas segundo relatos morreram várias pessoas. Mais tarde várias viaturas da comitiva do líder da RENAMO foram queimadas. Dhlakama acusou a FRELIMO pelos atentados.




Cerco a casa de Afonso Dhlakama

Em outubro de 2015 a guarda pessoal do líder da RENAMO foi desarmada pelas forças governamentais durante um cerco à sua residência na cidade da Beira. O Governo pretendia um desarmamento forçado dos homens da RENAMO. O desarmamento da maior força da oposição é um dos pontos controversos nas negociações de paz

Diálogo de paz pouco frutífero

Infindáveis rondas marcaram as negociações de paz. E em paralelo as armas falavam nas matas, membros da RENAMO eram assassinados a média de um por mês em 2016. Observadores e mediadores, nacionais e internacionais, entraram e saíram do barulho sem conseguir muito. Houve também adiamentos de rondas e algumas pausas no processo.


Dhlakama e Nyusi: maior proximidade, bons sinais

Em agosto de 2017 o Presidente Nyusi deslocou-se à Gorongosa, bastião da RENAMO, para se encontrar com Dhlakama. Os dois líderes acordaram sobre os próximos passos no processo de paz. Esperavam um acordo de paz até ao final de 2017, mas tal não deverá acontecer. Entretanto, Dhlakama está satisfeito com o andamento das negociações. O sigilo entre os dois parece ser o segredo de um bom entendimento.

s inimigos do Governo

A injustiça social e a má governação fizeram com que renascessem das cinzas, tal como a Fénix, cerca de 33 anos depois. O seu antigo aliado é agora o novo inimigo. Os naparamas juntaram-se aos milhares de cidadãos que, nos últimos meses, rejeitam o Governo da FRELIMO.


Não têm dado sossego aos próximos do regime. No início do mês, por exemplo, decapitaram um secretário do bairro no distrito de Morrumbala, na Zambézia.


Zito do Rosário, jornalista e ativista baseado na região, conta um facto mais recente atribuído aos naparamas: "Ontem, em Morrumbala, houve um clima de tensão no Bairro Samora Machel depois do falecimento do antigo combatente chamado Boer. Morrumbala acordou com um corpo carbonizado, o que gerou preocupação e comoção entre os moradores. Este corpo estava no pátio de uma escola, amarrado às costas, totalmente carbonizado e sem possibilidade de identificação."



O especialista em eleições Guilherme Mbilana viveu durante oito anos em Bilibiza, Cabo Delgado, e descreve os naparamas como uma espécie de "justiceiros populares"Foto: DW/N. Issufo

Uma força popular fortalecida e protegida por poderes ocultos seria a qualificação mais ajustada para estas tropas populares paralelas. Elas não dão sinal de querer vacilar, pelo contrário.


Guilherme Mbilana vê-os como uma espécie de justiceiros populares. "Posso dizer convictamente que os naparamas são uma força de sobrevivência do Estado – digo, das populações, que são pobres, que não têm o que comer, não tem tudo o que seria de bom para o cidadão num momento de estabilidadse que já não existe. É uma forma de organização das comunidades, sobretudo ao nível da segurança, para forçar o Governo a dar atenção às populações", afirma.


Mitos e histórias de aterrorizar

São um verdadeiro mito. As histórias sobre eles atraem a atenção e aterrorizam qualquer um, incluindo as Forças de Defesa e Segurança (FDS). Vários vídeos mostram polícias, por exemplo, literalmente amedrontados diante dos ritos dos naparamas.


"Eles têm armas ou tiveram e estão imbuídos de certo espiritismo, acreditando que os homens naparamas são anti-balas, que não morrem, etc.", comenta o académico João Mosca a propósito do misticismo à volta dos naparamas.


"Inclusivamente, dizem que Manuel António, que era comandante dos naparamas e foi morto na guerra civil pela RENAMO, perdeu a sua natureza anti-bala porque não cumpriu uma das regras que a própria feiticeira lhe teria recomendado. Enfim, são contos, mas que existem e que são temidos pela sua natureza violenta", destaca.

Atuam sobretudo na Zambézia, Nampula e Cabo Delgado. São respeitados pela população, com quem mantêm um forte vínculo e a quem prestam informações sobre as suas ações.


Sobre a sua origem, João Mosca explica que "os naparamas são um grupo paramilitar com base na Zambézia, em particular na Maganja da Costa. Há um livro de José Capela chamado 'República Militar da Maganja da Costa' que refere isso."


Mas também há quem acredite que os naparamas de hoje não sejam autênticos, que estejam apenas a aproveitar-se da crise política para obter vantagens. De qualquer forma, o seu modus operandi, baseado em crenças sobrenaturais e na imprevisibilidade da sua atuação brutal, coloca-os um passo à frente na luta contra as forças regulares. Quem sairá derrotado desta bata

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